O marcoense Roberto Rivelino tem motivos para celebrar. O técnico de guarda-redes, de 31 anos, natural de Alpendorada, conquistou o título da 2.ª Divisão de sub-17 da Arábia Saudita, ao serviço do Al-Ula, clube que sobe assim à primeira divisão do respetivo escalão naquele país.
Uma conquista que representa o culminar de dois anos de trabalho no emblema de Medina e na mesma competição.
“É algo que se vive com muita realização, porque, no fundo, é um trabalho de dois anos dentro do mesmo escalão, dentro da mesma competição”, afirmou Rivelino, para quem o título vai além dos resultados desportivos.
“Além das vitórias, da subida de divisão e do campeonato ganho, existe realmente muita matéria, muitos jogadores envolvidos. E, no fundo, é essa a marca: permitir que miúdos de realidades diferentes, que não sonhavam viver uma coisa destas, acabassem por realizar esse sonho”, esclareceu.

A temporada não foi linear. Numa fase inicial, a equipa teve dificuldades na assimilação do modelo de jogo, mas a partir do momento em que o processo ganhou consistência, o rendimento cresceu.
“Houve uma primeira fase em que a equipa estava a assimilar alguns aspetos, mas depois que a máquina engrenou, os jogadores tornaram aquilo fácil”, reconheceu o técnico, que dividiu o mérito com a estrutura técnica e a evolução individual dos atletas.
Uma equipa técnica de quatro portugueses e um universo diferente
Rivelino integrou uma equipa técnica composta por cinco elementos — treinador principal, adjunto, preparador físico, analista e ele próprio na função de técnico de guarda-redes —, dos quais quatro eram portugueses e um saudita.
Em torno dessa estrutura, o Al-Ula dispõe de recursos que extravasam o habitual: diretor metodológico, responsável pelo desenvolvimento técnico individual, coordenação de performance e vários departamentos que, nas palavras do marcoense, distinguem o clube dentro da realidade saudita.

A gestão da baliza foi um dos capítulos mais exigentes da época. Rivelino trabalhou com seis guarda-redes ao longo da temporada, utilizando cinco. Entre eles, um internacional, que integra atualmente a seleção saudita de sub-17 na Taça da Ásia, e outro formado no próprio Al-Ula que, após começar a época anterior como quarto guarda-redes dos sub-15, terminou esta como convocado da seleção.
Mas foi a história de um terceiro guarda-redes que marcou o técnico. Um jogador que recebeu ordem de dispensa em três ocasiões distintas e chegou ao escalão de sub-17 como última oportunidade.
“Estava muito desacreditado. Dedicou-se ao trabalho e teve uma evolução por grande mérito próprio, tanto a nível humano como técnico. Passados três meses, tivemos que utilizá-lo e ele fez quatro jogos de um bom nível, um nível que achamos ser superior ao que ele algum dia deveria ter mostrado”, contou Rivelino.
A bandeira de Alpendorada erguida na Arábia Saudita
Nas celebrações do título, Rivelino envolveu-se numa bandeira de Alpendorada, gesto que, segundo o próprio, gerou curiosidade entre os sauditas, habituados apenas à bandeira nacional.
“Perguntavam-me muito o que era, porque é que usava aquela bandeira. Ter a visualização deste sonho de poder erguer a bandeira junto a algo representativo e envolver a nossa gente nesta conquista foi algo que ainda adoçou mais o que aconteceu”, disse.
“Para mim tem um valor imensurável ter feito este gesto e espero que as pessoas de Alpendorada também se sintam parte desta conquista”, acrescentou.

Quanto ao futuro, Rivelino recebeu uma proposta de renovação do clube e a continuidade no Al-Ula está em cima da mesa.
“A ideia será crescer dentro da estrutura do clube, mediante o que o clube também pretende”, referiu, sem fechar a porta a novas ambições numa carreira que, recorde-se, já incluía um título de campeão da Fase Norte e consequente subida aos campeonatos nacionais ao serviço do Boavista FC.
Antes de ingressar no Al-Ula FC, o treinador passou pelo HIFK Helsinki, da Finlândia (2022), e pelo Fursan Hispania, dos Emirados Árabes Unidos (2023/24). Em Portugal, trabalhou em clubes como Sanjoanense, Vilaverdense, FC Felgueiras, AD Oliveirense e FC Alpendorada.
Analista reconhecido na área, Rivelino é autor do site ‘O Mundo dos Guarda-Redes’, o único em Portugal dedicado exclusivamente à posição, e publicou, em 2023, o livro ‘Pensar o Guarda-Redes’, onde partilha a sua visão sobre a função do número 1 do futebol.

