COVID-19: Testemunho de um polícia marcoense em tempo de pandemia [C/AUDIO]

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Medo, preocupação e angústia são alguns dos sentimentos que acompanham muitos profissionais que todos os dias têm de sair para trabalhar. É o caso do marcoense Emanuel Moreira, agente da Divisão de Investigação Criminal da PSP.

Emanuel Moreira é natural de Marco de Canaveses e agente da Polícia de Segurança Pública (PSP), que presta serviço na Divisão de Investigação Criminal do Comando Metropolitano do Porto.

Como tantos outros profissionais, continua a cumprir as suas funções diariamente, apesar do medo de ser contaminado e de contaminar os outros, da preocupação por estar diariamente em contacto com um grande número de pessoas e da angústia de voltar para casa todos os dias para junto da família.

Neste tempo de pandemia tem como missão, sobretudo, “localizar estabelecimentos que estejam abertos indevidamente e localizar pessoas de risco que deviam estar, e não estão, em confinamento”.


Estas casos são depois “reportadas ao colegas que andam em patrulha” que, por sua vez, “tomarão as medidas que devem ser tomadas em função do que foi decretado pelo estado de emergência”, explica.

As restrições impostas pelo estado de emergência são claras – saídas só para supermercados, farmácias e mais meia dúzia de exceções – mas ainda se encontra quem tente quebrar as regras, como aqueles que simplesmente não conseguem estar em casa vendo tanta vida lá fora.

“Houve dias em que veio um bocadinho de sol e as pessoas, já cansadas de estar em casa, quiseram fazer passeios junto à praia. A nossa função foi consciencializar as pessoas sobre o perigo desta doença e a tomarem as devidas precauções”, revela.

Sensibilizar os transgressores nem sempre é uma tarefa fácil. “Há pessoas que acabam por pôr a mão na consciência e perceber que estavam em desrespeito. Depois há pessoas que se acham donas da razão e que entendem que a liberdade deles não tem limites. Atuar neste contexto é mais difícil”.


Os agentes têm ordem para evitar o contacto físico, mas sempre que isso for inevitável, numa detenção, por exemplo, devem utilizar equipamento de proteção. Emanuel Moreira reconhece que “as viseiras já são usadas em praticamente todo o efetivo, mas no que diz respeito a luvas e as máscaras já não é assim”.


Recentemente, cada agente recebeu uma viseira e há kits, com uma máscara e um par de luvas, acondicionados em sacos de congelação, mas só podem ser usados mediante requisição com a devida justificação, ou seja, não há máscaras cirúrgicas à discrição para proteção dos agentes.

Emanuel Moreira assume que “os equipamentos acabam por não faltar, mas são muito limitados e para uso extremo em caso de atuação concreta junto da população”. Por vezes, junto de grupos de risco, como “ex-reclusos ou toxicodependentes”

“São indivíduos que não têm nada a perder e que deambulam pelas ruas porque não têm habitação própria. São pessoas ligadas à criminalidade e aproveitam o facto de muitos estabelecimentos estarem fechados de forma permanente para tentarem a sua sorte”.


Estas situações “aumenta ainda mais o sentimento e o receio de sermos infetados, porque essas são pessoas mais vulneráveis e com mais probabilidade de estarem contaminadas”.

Emanuel Moreira adianta que entre aqueles com quem trabalha diretamente “ainda não há qualquer caso positivo de Covid-19”.


No entanto, o diretor nacional da PSP, revelou, na quinta-feira, que há 134 funcionários infetados, entre policias e civis, e 270 em vigilância. Magina Silva adiantou ainda que a PSP teve até ao momento “apenas dois casos mais graves de dois agentes” que tiveram de ser internados “em hospital”, ambos “já livres de perigo”.

O policia de Marco de Canaveses admite que estes “são dias difíceis” para quem tem de andar no terreno, mas garante que o medo, a preocupação e a angustia não se sobrepõem ao “espírito de missão que tem de ser cumprido”, ou seja, “zelar pelos direitos, liberdades e garantias da população”.

Mas para Emanuel Moreira o pior não é o trabalho nas ruas. É, sim, a chegada a casa, quando reencontra “a filha de 3 anos, a quem não pode abraçar ou dar um beijo, como era normal”. A esposa “está mais consciencializada porque também está a viver isto no seu trabalho”, explica.


A profissão de risco que exerce roubou-lhe também o contacto direto com familiares mais próximos.

“Os meus pais e os meus sogros, que são pessoas de mais idade, têm tido mais dificuldades em lidar com esta situação, principalmente os meus pais, com quem já não estou há dois meses. Falo com regularidade com eles, por telefone, mas não é a mesma coisa”.

Ainda assim, confidencia que quando regressa a casa, tenta “desligar a ficha daquilo que foi mais um dia de trabalho, relaxar e recarregar baterias para voltar, no dia seguinte, a cumprir a missão”.

 


Reportagem | Luís Miguel Nogueira